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É oficial. Batemos no fundo do poço

Depois de um governo horrível, marcado pela oficialização da entrega de todos os galinheiros brasileiros às raposas, e por uma gestão trágica da economia, a presidente caiu. O processo de impeachment foi horroroso de se ver e trouxe a chocante constatação de que nossos congressistas, os mais caros do mundo, são também os piores.

Três a cada cinco deles têm problemas com a Justiça e quase nenhum liga para o interesse público. A internet será limitada, os políticos esqueceram a reforma no sistema, os foros privilegiados e blindam políticos corruptos de irem para cadeia serão mantidos, a Lei de Responsabilidade Fiscal para Saúde e Educação cairá, a idade para aposentar também aumentará, bancada evangélica continua pondo para regredir nosso conceito educacional,a minorias continuam esmagadas…

E o problema não é só Brasília: o chorume escorre pelo Brasil todo.

Com o colapso das cidades, do clima, do trabalho, da educação, da política, da economia, da indústria, da mídia, da segurança pública, do futebol, o stress explode e as grandes cidades brasileiras batem recorde de distúrbios mentais. As relações afetivas, que são a base sobre a qual qualquer nação se estrutura, passam por uma crise terrível – milhões de amizades foram desfeitas nos últimos meses num clima generalizado de desconfiança, ressentimento e ódio.o-crime-nosso-de-cada-dia

Não importa se você saiu às ruas de vermelho ou amarelo, ou se faz parte da grande maioria que só queria levar a vida em paz sem ser sacaneado. Numa coisa quase todos concordamos: estamos no fundo do poço.

Fundos de poço são lugares ruins. São também oportunidades ótimas. Aliás, se compararmos com exemplos históricos, até que nosso poço é rasinho. Quer um exemplo: quem vê o poderio dos Estados Unidos nem pensa que, 150 anos atrás, eles também estavam de joelhos, desmilinguidos por uma guerra civil, ameaçados de deixar de existir como país. Se não fosse esse trauma, os americanos não teriam tido a energia de reimaginar a ideia de República. Nasceu ali um novo sistema, cheio de pesos e contrapesos, com grande autonomia para cada Estado e liberdades garantidas, de maneira a proteger o cidadão do excesso de poder governamental.

Nenhum desses países é o paraíso na Terra (algo que aliás não existe), mas todos aproveitaram problemas graves para tornarem-se nações melhores.

MAS E AI?

Só que nada garante que um país afundado no poço vá conseguir sair dele. Uns jamais superam seus traumas e se acostumam ao cheiro de esgoto. Geralmente, são aqueles que não encontram força para escarafunchar as gavetas e exorcizar os fantasmas.
Claro que ajuda quando há lideranças capazes de apontar caminhos. O presidente, Michel Temer, obviamente não é isso. Sem apoio popular (só 2% dos brasileiros votariam nele), chega ao cargo mais alto da nossa democracia depois de somar apenas 700 mil votos em seu nome ao longo de 30 anos de carreira política – não daria para vencer o pastor Everaldo numa eleição presidencial. Se tem poucos votos, Temer tem muitos problemas na Justiça. É investigado pela operação Lava Jato, tem suspeitas de crime eleitoral, de receber propina, de vender cargos, de ter apoiado o impeachment para se proteger e de ter cometido as mesmas pedaladas fiscais que derrubaram Dilma. Montou um governo cujo índice de criminalidade só não é maior que o do Congresso.

Mas talvez seja melhor assim. Não será mesmo um presidente que nos tirará do poço. Seremos nós, exigindo mudanças na cultura e na política, varrendo os canalhas e os incompetentes e redesenhando nossos sistemas mais básicos, como fizeram Alemanha, Colômbia e Estados Unidos.

O PRIMEIRO PASSO É ACABAR COM OS  BENEFÍCIOS PARA UNS E CERCEAMENTO PARA OUTROS

O primeiro passo é encontrar consensos: coisas que nós todos vamos exigir juntos. Coisas tipo: a revogação imediata de todos os privilégios, dos benefícios diferenciados para cada grupo, do banheiro exclusivo para juiz, dos carros oficiais com motorista, da verba para comprar ternos, das regras de licitação excludentes, das carteiradas. Ou: a exigência de um projeto moderno de educação pública, acessível a todos, que torne o Brasil mais eficiente, eficaz, produtivo, inovador. Ou ainda: o fim do sistema político dependente das construtoras e empreiteiras, que financiam as campanhas e depois enchem os governantes de mimos, e torram a nossa grana em grandes obras terrivelmente destrutivas.

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Outro: incentivos fortes para tirar a maioria dos políticos profissionais do ramo e estimular membros da sociedade civil a participar mais diretamente. Ou mais: a busca de um novo modelo de produção, que privilegie a inovação e o empreendedorismo e que preserve e valorize as maiores riquezas do Brasil, que são os recursos naturais e a diversidade cultural.

Alguém discorda disso? Chegou a hora de exigir, então. Não vai ser mole, até porque quem está no poder quer mais é manter as coisas como estão. Mas não foi mole também para a Alemanha, a Colômbia e os Estados Unidos.

 

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