Início Vizinhos Um dia de trabalho, por Evandro Pelarin

Um dia de trabalho, por Evandro Pelarin

Saio do elevador. Uma mãe aflita me para. Ela está acompanhada de uma jovem, com um bebê no colo. Relata que perdeu os três filhos para as drogas. Um deles, de mais de 18 anos, está preso e é o pai daquela criança; aliás, uma menina linda, aparentemente sadia. A mulher busca ajuda para um dos filhos, dependente químico crônico, que não aceita tratamento voluntário. Vende as poucas coisas da casa, agride familiares, apanha na rua pelas dívidas de entorpecentes.

Começam as audiências. Entra uma adolescente, 15 anos, escoltada e algemada. Acusação: tráfico de drogas. Ela confirma a denúncia e conta um pouco de sua vida até aqui. Não sabe quem é o seu pai. A mãe está presa, cumprindo pena, pelo mesmo crime. Passou a viver na casa de um rapaz, que acabou preso em flagrante com alguns quilos de maconha. Depois do interrogatório, ela se senta no fundo da sala enquanto as testemunhas prestam seus depoimentos. Da minha mesa, pude ver que, de cabeça baixa, ela chora baixinho, com o olhar perdido.

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No próximo processo, três meninos, todos detidos, na faixa dos 15, 16 anos. Igualmente, tráfico de drogas. Ao negar o fato, dizem que estavam na rua para usar maconha e cocaína, as que foram apreendidas pela polícia. Dois deles já haviam passado pela Fundação Casa pela mesma ocorrência. Um deles mora com a avó, outro, com a tia e o terceiro deixou a casa dos pais e estava morando com conhecidos.

Chega mensagem pelo WhatsApp. Um conselheiro tutelar pergunta se pode tirar uma criança de 3 anos da casa da avó, diante de suspeita de agressão e abandono. Problema: não há familiares para acolhê-la aqui. Estavam à procura de uma tia, que mora em outra cidade. Seguem, ao mesmo tempo, audiências com menores apreendidos. Todas, quase com o mesmo enredo. Drogas, abandono, crimes e desolação.

Recebo um recado. Três meninas querem conversar comigo. Elas seriam levadas ao abrigo, diante de suspeitas de abuso sexual por familiar próximo. A mais nova, 11 anos, com seus óculos “fundo de garrafa”, me lança um olhar desesperado. Querem ficar com a mãe, cujo relatório técnico aponta esquizofrenia. Sento ao lado delas, no banco do corredor, e passo a ouvi-las, enquanto a sala de audiências é novamente preenchida de outros adolescentes algemados, com os uniformes da Fundação Casa.

Diante do computador, há uma fila de petições contra o Estado, cujas demandas se referem a remédios, tratamentos etc, para crianças com paralisia cerebral e outros casos de séria gravidade, onde os advogados pedem urgência, diante do risco até de morte. Perto das 20h, o vigia do Fórum bate à porta. Diz que há, do lado de fora do portão, uma senhora e um senhor, cujo tio-avô “de consideração”, de quase 80 anos, que morava sozinho, pobre, sem filhos ou parentes próximos, acabara de falecer e não liberariam o corpo para o funeral sem antes “um papel do juiz”.

De volta para casa, lembrei de minha mãe, para quem Deus levará para perto de si os desamparados e os sofridos neste mundo. Que Ele olhe então pelo bebezinho que vi no começo do dia, pelos jovens relatados no meio do texto e receba o senhor, que eu vi a foto de um RG rasgado. Por mim, para que eu pare de reclamar das coisas e atenda as pessoas, com o máximo que puder fazer.

pelarin

 

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