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A beleza não é fundamental

 

Em meus braços há sardas brancas, manchas que acumulei nos banhos de sol da minha infância e adolescência. No meu olho esquerdo, há uma pequena carne crescida na frente da pupila que, embora não seja bonito, não me incomoda. Ao andar, percebo que uma perna é mais comprida que a outra, então, o balanço do meu passo é irregular. A raiz dos meus cabelos é quase toda branca e requer tintura a cada quinze dias. No meu abdome, acumula-se uma gordurinha indesejada que muda minhas medidas e me deixa pouco elegante.

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Pequenas rugas contornam meus lábios e os pés-de-galinha há tempos enfeitam o canto externo dos meus olhos. Nas mãos, algumas veias saltam por causa da pele que afina com o avançar da idade. Uma sobrancelha minha é mais alta que a outra, com um desenho também diferente. Celulites? Estrias? Claro, inevitáveis!

Nada disso, entretanto, me aborrece ou faz-me pensar em mudanças. Às vezes penso que estou acomodada numa zona de conforto. Acho que tenho preguiça de ir para academia esculpir meu corpo, fazer massagem modeladora (não troco minha massagem relaxante por nada!) Talvez porque me sinta aceita entre as pessoas que amo, ou melhor, talvez porque eu mesma me aceite assim. Isso porque no fundo, no fundo, acredito que minha aparência não vai mudar em nada o afeto que as pessoas sentem por mim.

Os meus cabelos, com um pouco de atenção, ficam do jeito que eu quero: lisos ou cacheados. Minhas unhas têm um formato bonito, comprido na carne, mesmo quando estão curtas, parecem longas. Meus pés são magros e, com esmalte vermelho nas unhas, ficam lindos com qualquer tipo de sandália.

O que garante a aproximação, a admiração e o carinho dos outros não é como estamos, mas quem somos e o que fazemos. Sinto-me bem-vinda quando sou útil, solidária, amiga; isso me garante felicidade. Não me animo a fazer uma sessão de depilação por nada nesse mundo; é sofrimento desnecessário. Para que tanto sacrifício? Não estaria eu amando mais o outro do que a mim mesma?

Essa semana vi no jornal dois extremos: três lindas atrizes de Hollywood passaram por tantos procedimentos cirúrgicos e de preenchimento no rosto que, mesmo sendo lindas, conseguiram ficar feias; dentre elas, Uma Thurner e Catherine Zeta-Jones. Por outro lado, várias feministas resolveram deixar os pelos das axilas crescerem e pintaram-nos de cores vibrantes; disseram que essa é uma forma de protesto.

Da minha parte, não quero usar a aparência para conquistar ninguém nem para protestar contra nada. Tenho minhas crises, sim! Mas nunca é por causa da gordurinha do meu abdome ou pelas sobrancelhas diferentes. Acho que quem me ama mesmo não se importa com meus cabelos brancos, com as veias das minhas mãos ou com o meu andar descompassado.

Sempre apreciei a música e a poesia de Vinícius de Morais, mas nessa questão tenho que discordar de seu ponto de vista: desculpe-me, “poetinha”, mas a beleza não é fundamental.

 

Eliana Jacob

* Eliana Jacob Almeida é professora e escritora. Apaixonada por Literatura, acredita na palavra como instrumento para mudar o mundo

 

 

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